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08/06/2016

Incêndios e depredações de ônibus: perda total

As imagens que deveriam chocar já não nos chocam mais. Viraram rotina nas cidades grandes. Ônibus em chamas são vistos em nossos telejornais; sempre que a polícia invade algum reduto de traficantes, alguém é morto em confronto, ou há alguma revolta por qualquer outro motivo. As imagens de ferros retorcidos, enegrecidos pela fuligem, muitas vezes são observadas com olhos de quem já não vê nisso tanta novidade, e, por isso, não enxergam mais aquilo que está por trás delas.

 

São vidas humanas postas em perigo; gente que vai para o trabalho, para a escola, o consultório médico, a casa de algum amigo, e que tem a viagem interrompida pela ação de vândalos que mal lhe dão chance de descer do coletivo antes de nele atearem fogo. São rodoviários que passam a trabalhar tendo o medo como companheiro de jornada. São passageiros que perdem a confiança no seu transporte e ficam com a mobilidade reduzida, pela diminuição da frota. São empresários que têm prejuízos irrecuperáveis – pois não existe seguro para ônibus –, vendo minguar sua capacidade de investimentos.

 

Em Magé, em um único dia, 14 ônibus foram incendiados | Foto: Alexandre Auler / Ag. O Dia

Em Magé, em um único dia, 14 ônibus foram incendiados | Foto: Alexandre Auler / Ag. O Dia

 

A soma desses fatores tem como resultado a queda no padrão de vida da população, que tem a sua mobilidade seriamente comprometida. A segurança do usuário é abalada, o serviço de transporte tem sua qualidade reduzida, a cidade é transformada num ambiente onde deslocar-se pode ser perigoso. Perdem todos: poder público, empresários do setor, profissionais, passageiros, a própria imagem de nossas cidades perante o resto do mundo.

 

Região Sudeste é a mais atingida

 

Segundo levantamento da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), a partir de 2004 foram incendiados 1.585 ônibus no Brasil, 404 só no Rio de Janeiro. São Paulo detém o triste recorde, com 598.

 

O problema, que afeta fortemente o transporte público, foge à alçada dos operadores, pois a solução depende de adoção de políticas de segurança pública, exigindo também campanhas de conscientização e ações conjuntas e contínuas que visem a coibir e punir severamente esses crimes.

 

Além de já haver algumas vítimas fatais desses episódios – perdas irreparáveis, incalculáveis e definitivas –, outros traumas são causados. Seja passageiro ou profissional, quem enfrenta uma situação de tal risco passa a aliar a imagem do seu meio de transporte a uma experiência de terror. E esse legado do mal não se dissipa de um dia para o outro. Muitas vezes requer tratamento, tempo e paciência.

 

Foto: Arthur Moura

Foto: Arthur Moura

 

No último mês de abril, a morte de uma criança, em Magé (RJ), foi o estopim para ataques criminosos a lojas, destruição de patrimônio público e queima de ônibus. A cidade da Baixada Fluminense virou uma verdadeira praça de guerra, com as chamas que subiam dos veículos atingindo a fiação e causando falha no abastecimento de energia elétrica. Foram destruídos seis ônibus da TREL (Transturismo Rei Ltda.), quatro da Auto Viação Reginas Ltda., e quatro da empresa Rio de Janeiro.

 

Casos isolados não aparecem

 

O empresário Bruno Teixeira, da Viação Reginas, diz que a maioria dos casos nem ao menos merece a atenção da mídia: “retirando o último episódio, de maior significância, que foi esse de Magé, a maioria acontece de forma isolada e é pouco ou nada divulgada”. Bruno conta que, no dia 10 de maio deste ano, houve outro caso que provocou pânico e transtornos para passageiros e profissionais: “Nesta semana, na terça-feira, houve um ato dentro da Central do Brasil, onde foi fechado o túnel e ateado fogo a pneus. Nesse momento, havia mais de 100 carros da Auto Viação Reginas no entorno, que tiveram que fugir, pegando ruas na contramão, e abandonar todos os passageiros na rua, em pleno horário de retorno”.

 

Bruno Teixeira lamenta que seus clientes e empregados tenham de enfrentar situações desse tipo e que, só neste ano, oito coletivos de sua empresa tenham sido incendiados, acarretando prejuízo de cerca de R$ 3 milhões. Cada um desses veículos fazia média de seis viagens diárias, com 42 passageiros em cada. No total, a diminuição de assentos ofertados à população foi de 4.032.

 

Foto: Arthur Moura

Foto: Arthur Moura

 

Desrespeito à vida é banal

 

O empresário diz acreditar que o ato de queimar um ônibus – que constitui um desrespeito não só a um patrimônio da empresa que serve à população, mas, principalmente, à vida humana – tornou-se banal aos olhos de todos. Para ele, é fundamental que se dê a merecida importância ao problema, e que, dentre outras coisas, seja elaborado, o quanto antes, um plano de contingência para esses momentos, em parceria entre a empresa, o poder concedente e a polícia. Bruno sente falta também de uma política de conscientização da população, que muitas vezes acredita que o prejuízo é coberto por seguro, o que, infelizmente, não acontece. Mesmo que as seguradoras o fizessem, ele lembra que estariam amparadas pela legislação quanto a não obrigatoriedade de cobertura de danos causados por vandalismo. Ou seja: o empresário, que precisa oferecer um serviço essencial à população, com bons níveis de qualidade, perde parte da sua frota por fatos inteiramente alheios à sua vontade, e tem de assumir esse prejuízo – e ainda repor os veículos destruídos, sem qualquer amparo.

 

Bruno insiste que os operadores precisam de uma ligação direta com quem tem condições de agir de imediato. Para ele, mesmo enquadrando-se o incêndio de coletivos como crime hediondo, na prática, nada vai mudar muito, uma vez que as imagens gravadas pelas câmeras de bordo são destruídas pelo fogo.

 

Ações eficazes contra vandalismo

 

O presidente da NTU, Otávio Vieira da Cunha, por e-mail, se posicionou quanto à questão: “Aqueles que destroem bens privados que prestam um serviço público acabam por inverter a lógica dos fatos e gerar mais custos para o Estado e, consequentemente, para os próprios cidadãos. O preço moral e material dessas atitudes desmedidas requer que providências urgentes sejam tomadas, a fim de se controlar e evitar atos violentos. Nesse sentido, nos cabe evocar ao poder público ações mais eficazes para inibir o vandalismo, em favor da preservação da ordem e do bem de uso público. Agora, com a Lei 13.260/2016, é um passo a mais para que ações como incêndio a ônibus não fiquem mais impunes. Ainda assim, é preciso atenção das cidades, no quesito segurança pública, para essas práticas serem evitadas. A questão não está restrita apenas ao prejuízo material, mas também ao ônus de transportar o cidadão em segurança, quando se é alvo indiscriminado da insanidade de vândalos”.

 

Arte: Fetranspor

Arte: Fetranspor

 

A lei a que se refere Otávio Cunha é a chamada Lei Antiterrorismo, sancionada pela presidente afastada Dilma Roussef, em 16 de março último. A partir de sua entrada em vigor, os episódios contra os coletivos e seus passageiros poderão ser punidos de forma mais rigorosa.

 

São Paulo: 318 ônibus atingidos em 2016

 

O SPUrbanuss – Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo – informa que as empresas paulistas vêm procurando as autoridades de segurança pública desde 2014, para garantir a segurança de passageiros e operadores e o funcionamento regular do serviço, pois a incidência de atos de vandalismo é assustadora: neste ano, até agora, já houve queima de 22 ônibus e depredação de 296. No ano passado, os números
foram de, respectivamente, 51 e 572.

 

Para enfrentar o problema, foi desenvolvida, em 2014, a campanha “Ônibus queimado não leva a lugar nenhum”. Sobre ela, o presidente do SPUrbanuss, Francisco Christovam, diz: “o grande desafio foi propagar a reflexão de que a população é a principal prejudicada com a depredação e a queima dos ônibus. Precisamos da ajuda de todos para combater as ações criminosas. As denúncias sempre serão essenciais para minimizar os impactos causados ao transporte público e para que os responsáveis por tais atos sejam devidamente punidos”.

 

Segundo o Sindicato, o prejuízo com os incêndios e depredações é enorme (média de R$ 500 mil por veículo incendiado), mas a preocupação maior das empresas é com a rápida reposição das peças danificadas, para não ocorrer prejuízo ao serviço prestado.

 

No Rio, nem o BRT escapa

 

O serviço de BRT, que diminuiu bastante o tempo de deslocamento em percursos no Rio de Janeiro e oferece estações confortáveis, ônibus articulados de alta tecnologia e motoristas qualificados, nem por isso escapa dos vândalos e baderneiros. Todas as estações existentes já foram alvo, pelo menos uma vez, de ataque e pichações, e os números são assustadores: somente no período de junho de 2015 a fevereiro de 2016, houve 14.934 chamadas para conserto de portas automáticas, a maior parte devido a vandalismo, sendo 6.247 no Transoeste e 8.687 no Transcarioca. Como os 123 módulos de estações de Transoeste e Transcarioca possuem 1.532 portas automáticas (748 no BRT Transoeste e 784 no Transcarioca), houve consertos em número equivalente a quase dez por porta no período.

 

Os gastos mensais com reparos decorrentes de atos de vandalismo nas estações chegam a R$ 150 mil – R$ 75 mil só com o conserto de portas automáticas. Em 2015, o prejuízo chegou a R$ 1,25 milhão. O custo médio do conserto de portas automáticas é de R$ 300, podendo chegar a R$ 3.500, quando o motor é danificado. O custo de reposição do vidro é de R$ 600 e o de adesivação de uma estação é de R$ 10 mil.

 

Arte: Fetranspor

Arte: Fetranspor

 

Esses valores não deixam dúvida quanto à impossibilidade de se manter um serviço funcionando, com boa qualidade, se o problema não for resolvido o quanto antes. Além disso, demonstram que há uma necessidade urgente de conscientização da população, que precisa valorizar o serviço e proteger o patrimônio que a beneficia. Se em alguns casos, existe uma distorção de valores políticos e sociais – transferindo para o ônibus revolta por questões de ações policiais, atos governamentais e outros –, no BRT o que se vê, na maior parte das vezes, é falta de respeito pura e simples. Ambulantes que destroem máquinas de refrigerantes e água para vender seus produtos nas estações; pessoas que estragam equipamentos durante o carnaval, outras que danificam bancos por nada.

 

A diretora de Relações Institucionais do BRT, Suzy Balloussier, afirma: “o vandalismo é uma realidade que prejudica milhares de passageiros, todos os dias, no BRT. Cada porta, vidro e bancos destruídos, por exemplo, não provocam apenas uma sensação de desconforto e abandono ao cliente que passa por nossas estações. O resultado desse mau uso pode representar tarifas mais caras e um sistema precário de atendimento. O grande desafio é fazer com que o vândalo entenda que o maior lesado é ele mesmo, que escolhe o BRT comomeio de transporte. Sabemos que o caminho a trilhar é longo, porque envolve questões ligadas à educação e ao social. A nós, Consórcio, cabe investir em ações e propagandas de conscientização que, se por um lado não cessam de vez o vandalismo, por outro, criam um público formador de opinião que passa a reconhecer esse como um problema que ultrapassa as esferas da gestão empresarial”.

 

Para o presidente Lélis Teixeira, da Fetranspor, essas ações provocam, além dos grandes danos materiais e psicológicos, um atraso nas inúmeras ações que vêm sendo empreendidas pelas empresas pela melhoria do transporte no Estado. “A segurança de profissionais rodoviários e passageiros é item fundamental para a operação de um transporte de qualidade. É o ponto de partida para todos os demais itens que determinam uma boa experiência de mobilidade para o cidadão”.